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Slice of life e infraordinário: influências das mídias e das artes japonesas
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- pedro veneroso
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Nas primeiras conversas que tivemos quando começamos a criar o universo de Hoelum, um tema recorrente foi o desejo que esse mundo fosse definido não por situações de excessão e pelo extraordinário, mas por eventos cotidianos e tangíveis que possuem uma potência de outra natureza. Um mundo de contrastes que não se manifesta nem como uma utopia, nem como uma distopia puras. Um mundo em que o conflito existe, mas não é a tônica das narrativas.
Essa exploração da potência do infraordinário é ancorada em diversas referências e inspirações e também em obras pregressas de nossas próprias autorias. O termo infraordinário é apropriado de Georges Perèc. Em L'infra-ordinaire, o autor pondera que os eventos relevantes são sempre aqueles considerados extraordinários:
É necessário que por trás de cada acontecimento exista um escândalo, uma fissura, um perigo, como se a vida só se revelasse através do espetacular, como se o eloquente, o significativo fosse sempre anormal: cataclismas naturais ou calamidades históricas, conflitos sociais, escândalos políticos...
Em contraponto, ele chama a atenção para o apagamento dos eventos corriqueiros, se propondo a investigá-los por suas naturezas particulares. Não como eventos extraordinários, pois eles são o inverso, mas por sua importância manifesta especificamente em função de sua trivialidade, sua recorrência, sua familiaridade:
O que realmente ocorre, o que vivenciamos, o resto, todo o resto, aonde está? O que ocorre a cada dia e retorna a cada dia, o trivial, o cotidiano, o evidente, o comum, o ordinário, o infraordinário, o ruído de fundo, o habitual, como dar conta deles? Como interrogá-los? Como descrevê-los?
Encontramos no cinema, nos animes e nas artes japonesas uma abordagem que parece relacionada a questionamentos semelhantes. O gênero slice of life explora as minúcias e nuances do dia-a-dia, estruturando uma forma de narrativa que não se pauta nos conflitos de grandes proporções, mas na beleza do cotidiano e dos eventos que se destacam especificamente por serem infraordinários. Ao invés de eventos épicos que afetam toda a humanidade, temos as descobertas e experiências pessoais e de pequenos grupos e comunidades que tipicamente são apagadas frente aos eventos históricos.

Hirayasumi, 2021 - Atual
São muitas as referências que nos informam nesse sentido, muitas delas japonesas, tendo em vista a grande recorrência desse gênero na mídia do país. De Ozu a Koreeda, que exploraram dinâmicas da vida familiar e aspectos do cotidiano em seus filmes, a animes como o próprio Planetes (que recebeu um post dedicado a ele neste blog), Barakamon, Orbital Children, Kusuriya no hitorigoto, Thermae Romae Novae, The Great Passage, Nodame Cantabile, March Comes in Like a Lion, Kotonoha no niwa, Horimiya, Hyouka, Tamako Market, a série Monogatari e muitos outros. De mangás como Hirayasumi e Otoyomegatari às obras de Murakami (Sul da Fronteira, Oeste do Sol e Norwegian Wood, para citar dois romances).

Still walking, 2008
Há toda uma poética do cotidiano que as artes japonesas, como um reflexo da própria sociedade do país, exploram com profundidade. Os haikai, poemos curtos que tipicamente retratam eventos naturais e cotidianos, capturam uma realidade passageira. O formato foi muito explorado, no Brasil, por Paulo Leminski e Alice Ruiz. Igualmente os ukiyo-e, xilografias que floresceram no período Edo, retratam frequentemente cenas urbanas e cotidianas. O nome pode ser traduzido, literalmente, como "retratos do mundo flutuante".

Suijin Grove and Masaki on the Sumida River, 1856
O que se revela com a passagem das estações? Quais novas perspectivas são abertas ao se transitar por uma mesma trilha, dia após dia? Que dinâmicas e poéticas emergem das interações cotidianas em uma pequena comunidade ou no centro de uma metrópole? Pensar o cotidiano nos parece também uma forma de encontrar o fantástico que se revela no mundo como ele é.