Daqui ao Horizonte
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Tensionando paradigmas: o mundo da arte como inspiração subversiva para o Bar Provo

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Talvez a provocação e a desconstrução de paradigmas históricos sejam duas das marcas mais notórias do século XX. Da antiarte aos movimentos estudantis, da recusa do reducionismo científico aos movimentos contraculturais, da inter e da transdisciplinaridade ao decolonialismo, década após década viu-se um movimento crescente de heterogênese do conhecimento e ampliação das possibilidades de produção e experiência humanas.

Na virada do século, a proliferação da comunicação de massa e das tecnologias modernas derivadas da industrialização contribuíram para a emergência das vanguardas modernistas cujas atuações provocaram profundas cisões no mundo da arte. Os estatutos tradicionais da arte entendida enquanto imitação, cópia e representação da realidade deram lugar a um complexo problemático onde os artistas e as instituições passaram a questionar a própria definição do campo. Dos papier collés cubistas aos readymades duchampianos, do acaso como método dadaísta à recusa por uma arte meramente retiniana, tinha início, nas primeiras décadas do século XX, uma revolução cujos efeitos reverberam até os dias de hoje.

L.H.O.O.Q.
Marcel Duchamp

Àquela época, emergia um tipo de mentalidade transgressora em relação à arte e ao mundo ancorada na negação e no desvirtuamento de qualquer estrutura, dos processos tradicionais, dos axiomas que orientavam a arte e a vida social. Não só a mão do artista deixou de ser definidora de um objeto de arte, mas a experiência estética ancorada na fruição visual das obras encontrou ramificações que promoveram a desmaterialização do objeto de arte: a migração para o seu entendimento a partir dos tensionamentos de significado e de experiência provocados pelas obras que, em certo sentido, tornaram-se campos relacionais que promovem o agenciamento entre obra, mundo, autor, receptor, instituições e todo um ecossistema diverso e complexo.

O caos e a anarquia do Cabaret Voltaire, reduto de experimentação dos Dadaístas em Zurique durante a 1ª Guerra Mundial, reflete um ímpeto de destruição das convenções, mas também da potencialização da experiência humana quando os limites e as barreiras históricas esvanecem como névoa ou são quebradas com golpes furiosos. Essa faísca se espalhou por todos os campos do conhecimento: da teoria da relatividade como resposta às limitações do entendimento do mundo a partir da física clássica newtoniana à teoria do sistemas como negação de uma visão redutora e isolacionista do mundo. Da morte do autor que empoderou os leitores como parte da construção do sentido e do contexto de uma obra aos movimentos contraculturais que buscaram novos modos de existir enquanto sociedade. Do texto automático surrealista às obras telefônicas de Moholy-Nagy, produzidas por terceiros com base em instruções técnicas e precisas do artista.

Cabaret Voltaire, Zurique

Essa efervescência, esse tipo de questionamento e impulso de mudança, aparecem em Hoelum territorializados em um bar que ocupa o porão de um velho edifício localizado em uma zona decadente da nova capital, o Bar Provo. Esse lugar de nuances heterotópicas (como acúmulo de espaços e tempos heterogêneos) é um microcosmo de tudo aquilo que tensionou, tensiona e tensionará o status quo. Mais do que isso, em Daqui ao Horizonte esse espaço representa um golpe na seriedade, nas estruturas burocráticas e centralizadas do estado, na ordem e no progresso. Um pouco de nonsense introduzido em uma sociedade automática e inerte, uma pitada de ruídos e sons desconexos que desafiam a semântica convencional, um ímpeto hacker que desconstrói as tecnologias e amplifica seus usos. O sentido que emerge da desordem, dos espaços auto-geridos, da ânsia de alguns subversivos em descobrir o que há além: além do sentido, além das convenções, além da regras e das estruturas rígidas. Um salto confiante no breu da abstração.

No Manifesto do Senhor Antipirina, Tristan Tzara nos oferece uma mirada no que foi Dada: "Dada é a vida sem pantufas nem paralelas, é contra e pró a unidade e decididamente contra o futuro; somos sábios o suficiente para sabermos que nossos cérebros irão se tornar almofadas flácidas", ao que acrescenta, apropriadamente, que "a arte não é séria, isso eu lhe garanto". Um dia Hasegawa ouviu alguém recitar essas palavras para uma plateia entusiasmada de quatro ou cinco malucos sentados numa mesa esfumaçada no fundo do bar. Um pouco de Hoelum é não levar as coisas muito a sério. Por outro lado, é daí que emergem os sentidos mais profundos...

O espaço provocativo desse bar do século XXII que mistura o futuro e o passado se construiu e se constrói a partir de muitas inspirações. Construir mundos é, também, dialogar com referências. Pela profusão de referências que informam a construção do que é Hoelum, este texto continua, em publicações futuras, com uma imersão nas neovanguardas dos anos de 1960 e os movimentos contraculturais dessa época em diante.

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