Daqui ao Horizonte
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Cenas

Andarilho monta o Stonehenge do Acaiaca

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INT. BUNKER DO EDIFÍCIO ACAIACA. DIA

Em uma escura sala, a pesada porta metálica de um bunker é empurrada por Andarilho, com toda sua força.

O objeto quase não se move. O homem limpa o suor da testa e volta a tentar empurrá-la. Nada. Ele suspira, cansado, desistindo.

Z está parado, alguns metros atrás dele, observando com curiosidade os esforços do amigo. Andarilho o encara, frustrado.

   ANDARILHO
  Uma ajudinha, por favor?

Z se aproxima e sem muita dificuldade, consegue empurrar a extensa porta, que se abre lentamente.

Andarilho ativa o aparato em seu ombro e logo liga sua lanterna.

O que os dois encontram dentro do bunker parece impressionar a dupla. Andarilho, boquiaberto, observa o interior do bunker.

Ali se dão uma imensa quantidade de torres de servidores, empilhados em corredores retos e precisamente organizados, com amplo espaço entre os mesmos.

Sobre as torres, uma placa balança do teto, presa por correntes de metal.

Na placa, é possível ler: “ARQUIVO DA NET VELHA”.

Andarilho abre um sorriso enquanto caminha entre os servidores. Seus dedos passeiam sobre as superfícies de metal esmaltado, tirando uma quantidade considerável de poeira.

Ao final da sala, uma mesa de madeira com um gravador cilíndrico, parece destoar completamente do ambiente que a cerca.

Andarilho pega o gravador e o analisa de perto. Aperta o botão de PLAY.

Do mesmo, uma voz doce surge.

   VOZ DO GRAVADOR
  Boa tarde... boa noite... bom dia? Bom, não sei quando ou como alguém vai achar isso. Nem sei se vão achar. Mas se alguém tiver aqui escutando... oi, tudo bem? Meu nome é... bom, meu nome não importa. O que importa é o que tá nesse bunker. (PAUSA) Levei alguns anos baixando e catalogando tudo que consegui baixar da net velha. Isso é, antes de fragmentarem ela toda. Aqui tem de tudo, bom não tudo tudo, mas quase tudo que eu achava importante. Filmes, música, vídeos, manuais, reportagens, documentos etc. (PAUSA) Tudo que não querem que você saiba. (PAUSA) Eu sei que eu sou só uma voz do passado presa nesse cilindro. Mas por favor, eu imploro... eu tô literalmente ajoelhada nesse momento... Por favor... Por favor mesmo...quem quer que esteja escutando aí no futuro... Tira esses dados desse porão, leva eles pra luz. As pessoas precisam saber, as pessoas precisam lembrar. Eu não vou ter tempo pra fazer isso. (PAUSA)Um beijo, um abraço ou qualquer outra despedida que você quiser.

Andarilho aperta o botão de STOP.

Ele troca olhares com Z, um entendimento silencioso entre os dois.

Corta para:

Stonehenge do Acaiaca

Stonehenge do Acaiaca no centro devastado da Cidade Velha
Ilustração de Leonardo Cata Preta

EXT. CIDADE VELHA - FACHADA DO EDIFÍCIO ACAIACA. ENTARDECER

O sol do fim da tarde tinge de um dourado-avermelhado o céu acima da copa das árvores.

Andarilho está cuidadosamente colocando de pé uma das torres de servidor que estavam guardadas no bunker.

Todas as outras torres de servidores estão ali, dispostas em um semi-círculo ao redor da cabeça caída. Visto de cima, o local se assemelha a um templo antigo, uma espécie de Stonehenge tecnológico.

Andarilho limpa o suor da testa, cansado mas satisfeito com o trabalho que realiza.

Z está no processo de conectar todos os servidores com cabos grossos de cores diversas. Um potente gerador solar está ao lado e todos os cabos saem dele.

Cabos também seguem dos servidores até uma caixa metálica, no chão próxima a testa da cabeça, se espalhando pelo chão como serpentes de cores diversas.

Andarilho caminha até o gerador com passos lentos. Ele para junto ao robusto objeto.

   ANDARILHO
  Tá tudo pronto?

Z produz um fino braço e produz um sinal de positivo, levantando seu “polegar” (um fino cilindro ao final do braço) em noventa graus para cima.

   ANDARILHO
  Hora da verdade... literalmente.

Andarilho ri da própria piada por um momento.

Ele então puxa uma alavanca, ativando o gerador. O murmurar constante do mesmo imediatamente ecoa pela clareira.

As luzes começam a surgir nas torres de servidores, uma a uma, primeiramente amarelas e eventualmente verdes, conforme absorvem a corrente elétrica e são ativadas.

O olhar maravilhado de andarilho acompanha o ritmo das mesmas.

As luzes se acendem em todas as torres. É então que a caixa diante da testa da cabeça de concreto se ativa e projeta de forma holográfica um par de olhos nas pupilas acinzentadas da mesma.

Os olhos holográficos se abrem.

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