Daqui ao Horizonte
Posted em
World building

Cidade Velha: ruínas da mineração

Autor

Andarilho observa a devastação da Cidade Velha

Andarilho observa a devastação da Cidade Velha sentado na cabeça do Acaiaca
Ilustração de Eduardo Damasceno

A crise climática do século XXII afetou profundamente a vida na Terra. Diversas cidades tornaram-se inabitáveis, entre as quais Belo Horizonte. Na década de 2130, a antiga capital mineira viu problemas históricos se intensificarem: os alagamentos, antes pontuais, passaram a inundar bairros inteiros no período chuvoso; as ilhas de calor resultantes da verticalização da cidade criaram bolsões térmicos que, em determinadas épocas do ano, tornavam-se insalubres para os seres humanos. Combinado a isso, a exploração minerária da Serra do Curral e região contribuiu para poluir irreversivelmente os mananciais que abasteciam a metrópole. A cidade viu um gradativo movimento migratório à medida que seus problemas se intensificaram até que, em 2142, após um período de fortes chuvas, a Serra do Curral desabou. A intensa infiltração da água no solo da região provocou o deslizamento da serra e dos territórios à jusante, soterrando os bairros Mangabeiras, Serra e Anchieta e parte da Avenida Afonso Pena. Próximo do antigo Palácio das Artes há prédios cobertos de terra até o terceiro andar, enquanto no Mangabeiras as pontas de alguns telhados surgem do solo, revelando vestígios da cidade coberta pela terra.

Logo após a publicação das primeiras notícias sobre o evento iniciou-se um êxodo súbito da população, com a migração imediata de uma multidão que habitava a regional Centro-Sul. Em poucas horas a catástrofe, a mais letal da história da cidade, provocou o Estado a abandonar sua letargia histórica e declarar a zona urbana do município inabitável e de acesso restrito. A população que não havia abandonado a cidade voluntariamente nos anos anteriores foi forçada a se realocar e, dentro de menos de uma década, a cidade foi completamente abandonada. Devido à contaminação do solo na região do desmoronamento da Serra por resíduos da mineração e outras substâncias tóxicas, o mesmo se tornou infértil, de modo que nenhum tipo de vegetação cresceria até o final do século. Nos anos seguintes à catástrofe uma parte do perímetro da cidade foi cercada por grades e arame farpado e ruas de acesso foram fechadas com barricadas improvisadas. Em regiões estratégicas há guaritas, torres de observação e sistemas de vigilância, de modo a inibir o acesso do público à região. No final do século XXII essa infraestrutura encontra-se negligenciada e a região é monitorada mediocremente à distância.

Em meados de 2190 cientistas são alguns dos poucos indivíduos autorizados a entrar na zona restrita da Cidade Velha, alcunha popular que ao longo do tempo se tornou o nome oficial da localidade. Grupos de biólogos, arqueólogos, geólogos, entre outros, realizam expedições esporádicas visando o estudo da região e a coleta de amostras. A cidade se encontra em ruínas e está sendo reclamada pela natureza rapidamente. Mato alto cobre o asfalto e, onde não há mato, há rachaduras e, em alguns casos, grandes fendas. Carros abandonados enferrujam nas ruas, e equipamentos e objetos arcaicos abandonados pelos citadinos que fugiram às pressas deterioram ao relento. Rios antes canalizados no hipercentro e imediações correm livremente na superfície, tendo rompido os tapetes de asfalto ao longo dos anos. Alguns prédios desabaram e outros foram retomados pela floresta. Árvores altas da mata atlântica formam uma cobertura espessa na malha urbana, enquanto no topo da Afonso Pena a paisagem é desértica. Em bairros afastados, como no entorno da lagoa na região da Pampulha, alguns grupos insurgentes ocupam ilegalmente imóveis abandonados e vivem de modo rudimentar, pescando na Lagoa da Pampulha e vivendo como se estivessem parados no tempo, séculos atrás, completamente isolados do estado e sem interagirem com a sociedade centralizada.

"> ');