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Cenas

Cena de X presenteando Kei com um comunicador para eles conversarem

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INT/EXT. CASA DO KEI. FIM DE TARDE

Correndo, X passa direto pela vending machine hackeada pelo Hasegawa para servir como memorial de Hoelum. Pensando bem, ela pára um segundo uns metros à frente, dá uma olhada de soslaio, volta alguns passos e pega um drink dando um tranco na máquina com todo o lado do corpo. Um movimento bem preciso e deliberado, novamente ela ajusta com cuidado o ângulo do corpo.

Desta vez cai exatamente o drink que ela quer. Ela está começando a entender o tipo de tranco certo para ativar cada slot da máquina. "Nóoo, primeira vez!! Quê isso, foda demais." Ela se autocongratula, animada e orgulhosa de si mesma. “Uhhh, isso aí!”

X chega na casa de Hase e entra pelo portão baixo de madeira, entreaberto, gritando por Kei.

Tirando os sapatos na entrada, enquanto caminha, X adentra a casa sem cerimônia e se dirige diretamente para o quarto do amigo, correndo de leve, quase trotando. Ela dá um toque pro forma na porta, chamando Kei, e a abre antes que o garoto responda. Ainda sob o umbral, X tira da bolsa dois aparatos de comunicação, os mesmos que ela acabara de montar. Ela mostra os aparelhos pro Kei orgulhosa, segurando os dois pelas antenas.

Ela estende uma mão. Um ela dá para o Kei, outro ela mantém consigo.

Kei fica sem saber o que é.
– Quê isso?

X explica que é para eles se comunicarem: – Pra gente se falar, ué… Sabe como os comms de Hoelum que todo mundo usa não funcionam quando a gente vai pro meio do mato?
– Hum…
– … E dependem da Rede Hortelã e das pirate boxes?
– Um hum…
– Esse faz piggyback de dados em satélites P2P do mundo todo.

Ela fala um pouco da tecnologia por trás, diz que – Tem um chip que eu programei como endereçador que gera um identificador único que permite que só esses dois aqui se falem usando o Array de Satélites Descentralizados Anônimos. Tipo hardware coding, mas tem também um pouquinho de software

Ela continua. – Não que a gente fale nada que seja segredo de estado, mas não custa ter uma pequena solução de segurança também.
Kei meio cético diz: – Não parece tão pequena, mas tá bom…

Após um breve intervalo para o pensamento:
– Mas esse Array não tem acesso restrito? Pergunta o menino.
– Ih, Kei… isso é um detalhe irrelevante… além do mais, são satélites descentralizados, não são? Não faz o menor sentido não poder hackear uma rede pirata, uai! Eles deviam me agradecer por aderir aos princípios anárquicos do sistema!
– Difícil discordar disso… como sempre, sua lógica selvagem é infalível. Observa o menino.

X muda de assunto rapidamente.
– Hehe… Deixa eu te mostrar as outras funções!
O menino se aproxima, interessado.
– Escrevi um monte de softwares pra gente poder se falar e fazer outras coisas juntos. Esse aqui é um sistema de anotação. Primeiro eu tava programando em baixo nível, quase linguagem de máquina, mas daí percebi que seria melhor criar um markup que abstrai a lógica do circuito e a gente pode usar pra escrever código executável enquanto o sistema roda os ap…

Kei começa a ficar sobrecarregado com as explicações destiladas pela amiga e corta a fala dela.

– Calma, X, devagar. Meu conhecimento é em outros assuntos.
– Nunca entendi esse seu negócio de conhecimento compartimentado. Pode conhecer tudo.
– Esse é um jeito de conhecer as coisas, diz Kei, O meu é outro.
X fala que ele "Tá parecendo idoso…"
– Talvez eu seja mesmo… e não só esteja. Retruca Kei.

No aplicativo de anotações, X começa a escrever um haikai contemporâneo sobre cabelos brancos:
Na testa do Kei
Um solitário fio branco
Cumprimentou o sol

– Peraí! X acrescenta um “Relva da primavera” como última frase e quarto verso do poema.
– Haikai tem que ter referência à natureza e às estações… ela diz.

Kei: – Mas métrica não, né?
X apaga a frase da relva. – Tecnicamente nem um nem outro, né…

Kei olha pra X revirando os olhos, dá um soprinho que faz levitarem alguns fios da sua franja e depois ri.

Os dois riem juntos.

Eles editam o texto juntos no aparelho de X, ombro a ombro.

Na testa do Kei
Um fio branco primaveril
Cumprimentou o sol

Na testa do Kei
Primavera, lã branca
Acena ao sol

Na testa da X – Kei modifica o texto
Brota um fio branco
Acena ao sol

X olha pra ele, pouting.

– Esse fio branco bonitinho aqui. Ele pega o fio específico, mostrando para a garota.
– Ó, é mesmo!, responde X de modo trivial, analisando o fio com os olhos e os dedos.
– Guarda ele direitinho. Kei pega o fio branco com cuidado e coloca atrás da orelha da garota.

No aparelho de X, eles guardam todas as versões do haikai.
X envia para o Kei.

Funciona com um pequeno delay no qual eles ficam momentaneamente ansiosos.
A mensagem é recebida no aparelho do menino.

X começa a mostrar pra ele a função de gravar uma mensagem de áudio.
– Pão, macarrão, leite, ovos, dois quilos de batata, pão de queijo a gosto.
– Quê isso? Poesia contemporânea?
– É a lista pra pegar na Zélia… Minha mãe pediu… … …
Fade out do áudio inicia na lista.

Fora de casa, cai a noite.
Vista do portão da oficina do Hase e janela do quarto de Kei.
Silhuetas visíveis por ambas as aberturas.
Hase segue trabalhando no hover.

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