Daqui ao Horizonte
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Cenas

Cena de X e Kei tranquilos antes da tempestade

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Longa exposição de tempestade de raios no Rola-Moça

Longa exposição de tempestade de raios no Rola-Moça
Foto de Pedro Veneroso

INT. QUARTO DO KEI. NOITE

O tempo fecha de outubro a março.

Tempestades de raios. Estamos no fim do inverno, antes do início das tempestades de água. Vozes através da janela; umas risadas; e um breve silêncio.

Deitados na cama do Kei, invertidos um em relação ao outro, X e Kei conversam sobre a Lua olhando esporadicamente para o satélite pela janela. É noite.

– Como que a gente nunca foi na Lua?
X indaga, aérea, olhando diretamente para o céu.
– … Nem entrou em órbita ou sentiu a gravidade zero… Ela continua.
Kei observa com atenção o rosto da menina de perfil.
No céu parcialmente limpo, a tal Lua. X observa, agora de soslaio, virando o rosto para o Kei.
– A gente nem saiu do país… quase precisa de passaporte para entrar em Cárdea, aqui do lado, e cê tá pensando na Lua…? Reflete Kei.
– Um dia a gente tem que esconder em um shuttle e entrar lá clandestinamente, igual o meu pai contava do Ian…
– Seria uma boa onda… poetas, lunáticos e criminosos…
– Só de ter nascido em Hoelum, pro mundo é como se a gente já fosse automaticamente criminoso. Pondera X.
– Fato, fato… Terroristas, ainda por cima…
– … dos mais barra-pesada… Ela complementa jocosamente.

X avança em Kei mordendo o ar e grunhindo desafiadoramente, muito perigosa de brincadeira, ironizando com graça as forças opressoras do estado. Aquela típica X zombeteira.
Kei ri.

X senta apoiada na parede, a janela agora às suas costas. Ela pega o pé de Kei e começa a mexer nos seus dedos.
Kei sente cócegas de leve, mas deixa ela continuar.

– Em um certo sentido, talvez a gente fosse mesmo menos criminoso se entrasse ilegalmente na lua. Diz Kei, observando X contra a lua.

– A gente rouba uniformes de alguma dessas mineradoras… Devaneia X.
– Checa onde ficam as câmeras de segurança… Complementa Kei.
– Se esgueira por algum portão de carga aberto de uma nave estacionada…
– Esconde numa câmara vazia durante a viagem…
– E desembarca na Lua.
– Passa pela imigração, foge da polícia, arruma lugar pra ficar com alguém que conheceu seu pai… come terra lunar… Kei pausa. Fora esses problemas simples de resolver e essa sequência irrisória de crimes suaves, depois como é que a gente volta?
– Uai, como assim volta? Pergunta X. Depois a gente segue sempre em frente… explora o universo, sei lá.

X deita a cabeça no peito do Kei, sobre o seu coração, e abraça o seu torso, mimetizando a cena de Lennon e Yoko invertida.
– Falando sério… dia desses a gente podia mesmo dar um jeito de deixar umas pegadas na lua… Diz X, quase num sussurro…
– うん。Podia…

Ao fundo, sons de raios distantes, sem chuva.

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